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... é cada
vez mais comum debruçar-nos sobre
questões científicas para cuja
resolução é necessário viajar para
zonas com habitats completamente
diferentes daqueles em que
geralmente anilhamos em Portugal.
É o caso de um projecto de
Doutoramento realizado em conjunto
entre o Instituto Percy
FitzPatrick de Ornitologia
Africana da Universidade da Cidade
do Cabo, o Museu de Zoologia dos
Vertebrados da Universidade da
Califórnia e o Centro de
Investigação em Recursos Genéticos
e Biodiversidade da Universidade
do Porto, onde eu sou
investigador.
Interessa-nos perceber como se
processa a evolução de espécies de
aves nas zonas áridas. De
particular interesse é a zona que
compreende a maior parte do oeste
da África do Sul, da Namíbia,
Botswana e do sul de Angola, que
se tem mantido estável durante os
últimos milhares de anos,
possibilitando a origem de muitas
espécies endémicas. Esta zona já
esteve ligada por um corredor
ecológico às zonas áridas
existentes no Quénia, Tanzânia,
Etiópia e Somália, o que torna
este tipo de investigação ainda
mais interessante.
Escolhemos
estudar o género Cercotrichas, do
qual ocorre em Portugal o
Solitário ou Rouxinol-do-Mato (Cercothrichas
galactotes), porque é um dos
grupos mais característicos das
zonas áridas (compreende somente
10 espécies, das quais 6 ocorrem
no sul de África). Esta expedição,
que decorreu durante 4 semanas em
Abril de 2008, foi só uma das
várias que têm permitido obter
amostras de sangue da maioria
destas espécies. Desta vez as
principais espécies alvo foram o
“Karoo Scrub-Robin” (Cercotrichas
coryphaeus) e o “Kalahari Scrub-Robin” (Cercotrichas
paena),
para além do “Cape Robin-Chat” (Cossypha
caffra).
O “Karoo” é
um região geográfica árida a
semiárida, do tamanho da Alemanha,
que se estende por uma grande
parte do território sul africano e
do sul da Namíbia e caracteriza-se
pela sua vegetação
maioritariamente endémica,
constituída por plantas suculentas
e arbustos (nomeadamente acácias).
Por esta razão é considerado um
dos “hotspots” mundiais de
diversidade. O “Kalahari” (a
palavra quer dizer “local sem
água”), é uma região de dunas e
savana seca, que cobre a maior
parte do Botswana, sudeste da
Namíbia e norte da África do Sul.
É coberta principalmente por
gramíneas e acácias, o que permite
albergar uma fauna mais diversa,
que inclui várias espécies de
antílopes, leões, etc. Nestas
zonas áridas os rios temporários
são muito importantes pois formam
condições ideais para o
estabelecimento de árvores e
arbustos, formando assim
corredores ecológicos onde a
abundância de aves é maior.
A nossa
viagem teve início e fim na Cidade
do Cabo (percorremos mais de 4.000
km) e a nossa equipa era composta
por 4 investigadores (2 sul
africanos e 2 portugueses). O
objectivo era recolher amostras de
sangue de pelo menos 15 aves de
cada espécie em vários locais de
modo a caracterizar a sua
diversidade genética. A maior
parte das aves que amostrámos
foram capturadas utilizando
pequenas armadilhas activadas por
uma mola e com isco vivo (neste
caso, pequenas larvas, o nosso bem
mais precioso durante a viagem).
Estas espécies são mais frequentes
em zonas com arbustos e são
territoriais, o que implicava
procurar os casais utilizando
vocalizações gravadas e posterior
montagem de várias armadilhas nos
arbustos mais utilizados por estas
aves. Mas também utilizámos redes
com 5 bolsos, muito eficazes,
especialmente nas galerias
ripícolas. A presença de mangustos,
babuínos e macacos implicava uma
vigilância muito apertada das
redes, pois estes podem muito
facilmente retirar aves das redes
ou mesmo danificar a rede. No
final obtivemos cerca de 500
amostras de sangue. O facto de
termos acampado na maioria dos
dias permitiu maximizar o número
de aves amostradas pois
começávamos a capturar aves mesmo
antes do nascer do sol.
Obviamente
que capturámos muitas outras
espécies nas redes, das quais
posso salientar o “Cape Bulbul” (Picnonotus
capensis) e o “African Red-eyed
Bulbul” (Pycnonotus nigricans), o
“Lesser Honeyguide” (Indicator
minor) que guia humanos e outros
mamíferos até colmeias de abelhas
para poder alcançar o cera e as
larvas de que se alimenta após a
destruição ou perturbação da
colmeia, o “Acacia Pied Barbet” (Tricholaema
leucomelas), o “Cape White-eye” (Zosterops
pallidus), o pequeno “Marico
Sunbird” (Nectarinea mariquensis),
o “White-backed Mousebird” (Colius
colius) e alguns picanços muito
diferentes dos que estamos
habituados a anilhar, tais como o
“Bokmakierie” (Telophorus zeylonus)
e o “Crimsom-breasted Shrike” (Laniarius
atrococcineus). De notar que para
além do guia de aves, não existe
nenhum livro equivalente ao nosso
“Svensson”, o que torna mais
difícil a atribuição de idades.
Foi também possível observar
muitas espécies, que infelizmente
não anilhámos, das quais saliento
algumas: O “Secretary Bird” (Saggitarius
serpentarius), uma ave de rapina
completamente diferente do que
estamos habituados, por possuir
longas pernas e por preferir caçar
no solo; a “Goliath Heron” (Ardea
goliath), a maior garça do mundo
(120-150 cm);o “Karoo Korhan” (Eupodotis
vigorsii), uma aves estepária
muito comum no Karoo; e os
“Sociable weaver” (Philetairus
socius), que fazem ninhos
coloniais enormes nas árvores e
nos postes. Também é muito
gratificante ver espécies que
ocorrem em Portugal a adoptar
comportamentos completamente
diferentes. Realço por exemplo a
observação de várias
cegonhas-negras a passar a noite
no topo dos postes telefónicos ao
longo de uma estrada de terra. Em
resumo, não foi só uma expedição
bem sucedida porque alcançámos
todos os nossos objectivos de
amostragem, mas também porque nos
permitiu viajar por habitats e
zonas especialmente atractivas
pelos seus valores naturais.
Ricardo
Lopes
Membro da Direcção da APAA
Investigador do Centro de
Investigação em Recursos Genéticos
e Biodiversidade da Universidade
do Porto
http://ricardojorgelopes.no.sapo.pt/
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