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Reportagem

Anilhagem em Palmas - Brasil

A APAA no VII Cong. Ornitologia

Proj. RAS com Charadrius dubius

Anilhar na Hungria

Anilhar em Portugal

Marrocos 2011

Breve História da Ornitologia

Anilhar na Bélgica

Há dias que nunca mais fogem...

Anilhar na Finlândia

Anilhar na Suécia

Campanha MIGRAÇÃO - Tornada

Estudo da demografia dos albatrozes

Anilhagem nas Salinas do Samouco

Anilhar nos Açores

Expedição CERCOTRICHAS 2008

 

Histórias de aves

Remiz pendulinus

Parus major

 

EEC

EEC Água Branca - Odemira

EEC Paul Taipal - Montemor-o-Velho

EEC Paul da Madriz 2 - Soure

EEC Paul da Madriz 1 - Soure

EEC Fonte da Benómola - Loulé

EEC Parque Biológico de Gaia - Gaia

 

MAI

Vale Soeiro - Coimbra

 

Expedição CERCOTRICHAS 2008

Cada dia que passa...

... é cada vez mais comum debruçar-nos sobre questões científicas para cuja resolução é necessário viajar para zonas com habitats completamente diferentes daqueles em que geralmente anilhamos em Portugal. É o caso de um projecto de Doutoramento realizado em conjunto entre o Instituto Percy FitzPatrick de Ornitologia Africana da Universidade da Cidade do Cabo, o Museu de Zoologia dos Vertebrados da Universidade da Califórnia e o Centro de Investigação em Recursos Genéticos e Biodiversidade da Universidade do Porto, onde eu sou investigador.

 

Interessa-nos perceber como se processa a evolução de espécies de aves nas zonas áridas. De particular interesse é a zona que compreende a maior parte do oeste da África do Sul, da Namíbia, Botswana e do sul de Angola, que se tem mantido estável durante os últimos milhares de anos, possibilitando a origem de muitas espécies endémicas. Esta zona já esteve ligada por um corredor ecológico às zonas áridas existentes no Quénia, Tanzânia, Etiópia e Somália, o que torna este tipo de investigação ainda mais interessante.

 

Escolhemos estudar o género Cercotrichas, do qual ocorre em Portugal o Solitário ou Rouxinol-do-Mato (Cercothrichas galactotes), porque é um dos grupos mais característicos das zonas áridas (compreende somente 10 espécies, das quais 6 ocorrem no sul de África). Esta expedição, que decorreu durante 4 semanas em Abril de 2008, foi só uma das várias que têm permitido obter amostras de sangue da maioria destas espécies. Desta vez as principais espécies alvo foram o “Karoo Scrub-Robin” (Cercotrichas coryphaeus) e o “Kalahari Scrub-Robin” (Cercotrichas paena), para além do “Cape Robin-Chat” (Cossypha caffra).

 

O “Karoo” é um região geográfica árida a semiárida, do tamanho da Alemanha, que se estende por uma grande parte do território sul africano e do sul da Namíbia e caracteriza-se pela sua vegetação maioritariamente endémica, constituída por plantas suculentas e arbustos (nomeadamente acácias). Por esta razão é considerado um dos “hotspots” mundiais de diversidade. O “Kalahari” (a palavra quer dizer “local sem água”), é uma região de dunas e savana seca, que cobre a maior parte do Botswana, sudeste da Namíbia e norte da África do Sul. É coberta principalmente por gramíneas e acácias, o que permite albergar uma fauna mais diversa, que inclui várias espécies de antílopes, leões, etc. Nestas zonas áridas os rios temporários são muito importantes pois formam condições ideais para o estabelecimento de árvores e arbustos, formando assim corredores ecológicos onde a abundância de aves é maior.

 

A nossa viagem teve início e fim na Cidade do Cabo (percorremos mais de 4.000 km) e a nossa equipa era composta por 4 investigadores (2 sul africanos e 2 portugueses). O objectivo era recolher amostras de sangue de pelo menos 15 aves de cada espécie em vários locais de modo a caracterizar a sua diversidade genética. A maior parte das aves que amostrámos foram capturadas utilizando pequenas armadilhas activadas por uma mola e com isco vivo (neste caso, pequenas larvas, o nosso bem mais precioso durante a viagem). Estas espécies são mais frequentes em zonas com arbustos e são territoriais, o que implicava procurar os casais utilizando vocalizações gravadas e posterior montagem de várias armadilhas nos arbustos mais utilizados por estas aves. Mas também utilizámos redes com 5 bolsos, muito eficazes, especialmente nas galerias ripícolas. A presença de mangustos, babuínos e macacos implicava uma vigilância muito apertada das redes, pois estes podem muito facilmente retirar aves das redes ou mesmo danificar a rede. No final obtivemos cerca de 500 amostras de sangue. O facto de termos acampado na maioria dos dias permitiu maximizar o número de aves amostradas pois começávamos a capturar aves mesmo antes do nascer do sol.

 

Obviamente que capturámos muitas outras espécies nas redes, das quais posso salientar o “Cape Bulbul” (Picnonotus capensis) e o “African Red-eyed Bulbul” (Pycnonotus nigricans), o “Lesser Honeyguide” (Indicator minor) que guia humanos e outros mamíferos até colmeias de abelhas para poder alcançar o cera e as larvas de que se alimenta após a destruição ou perturbação da colmeia, o “Acacia Pied Barbet” (Tricholaema leucomelas), o “Cape White-eye” (Zosterops pallidus), o pequeno “Marico Sunbird” (Nectarinea mariquensis), o “White-backed Mousebird” (Colius colius) e alguns picanços muito diferentes dos que estamos habituados a anilhar, tais como o “Bokmakierie” (Telophorus zeylonus) e o “Crimsom-breasted Shrike” (Laniarius atrococcineus). De notar que para além do guia de aves, não existe nenhum livro equivalente ao nosso “Svensson”, o que torna mais difícil a atribuição de idades. Foi também possível observar muitas espécies, que infelizmente não anilhámos, das quais saliento algumas: O “Secretary Bird” (Saggitarius serpentarius), uma ave de rapina completamente diferente do que estamos habituados, por possuir longas pernas e por preferir caçar no solo; a “Goliath Heron” (Ardea goliath), a maior garça do mundo (120-150 cm);o “Karoo Korhan” (Eupodotis vigorsii), uma aves estepária muito comum no Karoo; e os “Sociable weaver” (Philetairus socius), que fazem ninhos coloniais enormes nas árvores e nos postes. Também é muito gratificante ver espécies que ocorrem em Portugal a adoptar comportamentos completamente diferentes. Realço por exemplo a observação de várias cegonhas-negras a passar a noite no topo dos postes telefónicos ao longo de uma estrada de terra. Em resumo, não foi só uma expedição bem sucedida porque alcançámos todos os nossos objectivos de amostragem, mas também porque nos permitiu viajar por habitats e zonas especialmente atractivas pelos seus valores naturais.

 

 

 

 

 

 

Ricardo Lopes

Membro da Direcção da APAA

Investigador do Centro de Investigação em Recursos Genéticos e Biodiversidade da Universidade do Porto

http://ricardojorgelopes.no.sapo.pt/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
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